Elas já são 244 mil no Brasil e entre 8 e 10 milhões no mundo
Reportagem Especial Portal de Engenharia e Sustentabilidade | Giovani Vitória | Jornalista

Aos poucos, as mulheres tem conquistado mais espaço na engenharia brasileira. Hoje temos 244 mil engenheiras no país – cerca de 20,2% de um universo de 1,2 milhão de profissionais com registro ativo. Segundo dados compilados pelo Sistema Confea/CREA/Mútua, em 2025, 26% dos novos profissionais eram do sexo feminino. Um aumento de 6% em relação ao ano anterior.
Também está havendo uma forte renovação geracional. Um mini Censo desenvolvido pelo Confea aponta que apenas 12% dos profissionais acima de 60 anos são mulheres. Mas em outra faixa etária, com menos de 30 anos, elas já representam 1 em cada 3 profissionais (cerca de 33%). A média de idade das engenheiras ativas é de 38 anos, comparada à média masculina de 43 anos. Em 2020, por exemplo, o Brasil registrava cerca de 184 mil mulheres na área. Isso representa um crescimento superior a 30% na presença feminina em seis anos.
Posições de liderança
O crescimento é significativo. Mesmo num cenário carregado de obstáculos e desafios em ambientes tradicionalmente masculinos, as mulheres vêm ganhando espaço na profissão. A busca por diversidade e inclusão tem impulsionado esse protagonismo. É cada vez mais comum ver elas assumindo estratégicas de destaque nos projetos, em áreas diversas.
Mas isso não ocorre em todas as áreas da engenharia. A maior procura pela mão de obra especializada das mulheres ocorre nas engenharias química e de produção. A engenharia elétrica e a mecânica ainda contam um número menor.
O Confea, os Conselhos Regionais e as entidades de classe também desenvolvem programas para impulsionar essa presença, incentivar, ampliar a representatividade e combater o machismo. O Confea e o CREAs, por exemplo, mantêm iniciativas como o Programa Mulher, focadas na valorização, capacitação e ampliação da representatividade feminina nas carreiras tecnológicas.
Também temos diversos coletivos focados no avanço feminino na área tecnológica. A A Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (ABENGE) possui discussões aprofundadas sobre a divisão sexual do trabalho e o perfil de alunas. Universidades, por sua vez, costumam abrigar núcleos estudantis como o Women In Engineering (WIE), promovendo mentorias
Data comemorativa
A presença das mulheres na engenharia mereceu até uma data comemorativa. O dia 23 de junho é celebrado o Dia Internacional das Mulheres na Engenharia A data surgiu em 2014 por iniciativa da Sociedade de Mulheres Engenheiras do Reino Unido (Women’s Engineering Society) e tem como objetivo celebrar a presença feminina na área, bem como incentivar o protagonismo no mercado de trabalho.
Pioneiras da engenharia no Brasil

A engenheira Edwiges Maria Becker Hom’meil foi a primeira engenheira a se formar no Brasil, em 1917, na instituição que depois se tornaria a Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Poli/UFRJ). A carioca abriu caminho para que outras mulheres também pudessem trilhar suas próprias rotas no setor.

Enedina Alves Marques, neta de escravizados, foi a primeira mulher negra a tornar-se engenheira no Brasil. Ela se graduou em engenharia civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), rompendo padrões acadêmicos e sociais impostos à época. Depois de formada, tornou-se responsável pelo planejamento para a construção da Usina Hidrelétrica Capivari-Cachoeira, obra que ampliou a oferta de água e luz para a capital, Curitiba.

A primeira mulher a se formar em engenharia elétrica e engenharia mecânica no Brasil foi Maria Luiza Soares Fontes, pelo antigo Instituto Eletrotécnico de Itajubá, no estado de Minas Gerais, em 1950. Ela recebeu o diploma diretamente de Juscelino Kubitscheck. Seu principal feito foi a padronização do Plano Postal dos Correios e Telégrafos, no Rio de Janeiro.

Evelyna Bloem Souto, a única mulher da primeira turma do curso de engenharia civil da Universidade de São Paulo (USP), no campus de São Carlos, em 1957. Evelyna enfrentou diversas barreiras do preconceito contra a presença feminina na profissão em episódios por toda sua carreira. Um deles aconteceu durante sua bolsa de estudos em Paris, na França, quando fez uma visita a um túnel que estava sendo feito para ligar a França à Itália, e foi obrigada a se vestir com roupas masculinas e pintar um bigode em seu rosto.
Cenário global
Na área acadêmica, a formação de novas engenheiras em escala global também apresenta desafios de incentivo e valorização para essas profissões. Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) apontam que apenas 30% das mulheres na educação superior optam por cursos relacionados à Engenharia. Os motivos para a maior evasão feminina das universidades envolvem fatores financeiros, profissionais, questões pessoais associadas à saúde ou à maternidade e a insatisfação com o curso e o convívio com professores ou colegas.
Não existe um número consolidado global porque muitos países em desenvolvimento não têm censos profissionais unificados. Cada nação adota critérios diferentes para definir quem é “engenheiro ativo” (alguns contam apenas diplomas, outros exigem registros de classe). Ainda assim, cruzando dados de grandes blocos econômicos e relatórios internacionais, estima-se que existam hoje entre 8 e 10 milhões de mulheres engenheiras em atividade no mundo.
Somando a forte presença feminina na Ásia (especialmente Índia e China) com os percentuais ocidentais, a média global de mulheres que exercem a profissão hoje fica na faixa de 18% a 22% de toda a força de trabalho da engenharia mundial.
Estudos de mercado internacional apontam que existem entre 35 e 45 milhões de engenheiros ativos no planeta. O maior contingente está concentrado em três grandes potências:
A China possui o maior exército de engenheiros do mundo, graduando mais de 1 milhão de novos profissionais por ano. A Índia conta com uma força de trabalho estimada em mais de 5 milhões de engenheiros. Os Estados Unidos, por sua vez, têm cerca de 2,5 a 3 milhões de profissionais na área.
A proporção feminina por região, aplicando as taxas oficiais de representatividade feminina dessas e de outras regiões sobre o total de profissionais, os números se desenham assim
Índia: É um dos países com maior proporção do mundo. Cerca de 30% a 35% dos estudantes e graduados em engenharia são mulheres. Isso se traduz em algo próximo a 1,5 milhão de engenheiras indianas.
Europa: Dados oficiais do Eurostat mostram que as mulheres representam cerca de 41% dos profissionais se somadas as áreas de ciência e engenharia agregadas. No entanto, isolando apenas as engenharias tradicionais (civil, mecânica, elétrica), a taxa real de engenheiras no mercado europeu flutua entre 15% e 20%.
Estados Unidos: O órgão oficial Society of Women Engineers (SWE) aponta que apenas 14% a 15% dos engenheiros em atividade no mercado americano são mulheres, totalizando cerca de 400 mil profissionais.
América Latina e Brasil: A média regional de engenheiras no mercado de trabalho gira em torno de 20%.
