
Com forte participação de fontes renováveis e destaque na construção certificada, país reúne experiências que mostram como transformar o conceito de sustentabilidade em soluções para a sociedade
Projetar uma edificação, desenvolver um equipamento ou implantar uma indústria envolve decisões que vão além do custo e da execução. O consumo de água e energia, a escolha dos materiais, a geração de resíduos e os efeitos sobre as comunidades também fazem parte dessa equação. É nesse conjunto de responsabilidades que a sustentabilidade ganha aplicação nos diferentes campos da engenharia.
O Brasil apresenta vantagens nesse cenário. Em 2023, as fontes renováveis representavam 89,2% de sua matriz elétrica, enquanto a participação mundial era de 30,6%. Considerando toda a matriz energética, incluindo os combustíveis utilizados nos transportes e na indústria, os percentuais eram de 49,1% no Brasil e 14,5% no mundo. A comparação, baseada em dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Agência Internacional de Energia, utiliza o mesmo ano para ambos. www.epe.gov.br.
Esses números revelam uma posição favorável, mas não bastam para medir a sustentabilidade do país ou de seus profissionais. Uma infraestrutura sustentável também precisa ser segura, economicamente viável, socialmente acessível e capaz de reduzir impactos durante sua construção, operação e eventual desativação.
Das florestas à agenda mundial
A preocupação com a continuidade dos recursos naturais antecede o debate contemporâneo. Em 1713, o alemão Hans Carl von Carlowitz publicou uma obra sobre manejo florestal que se tornou referência histórica para a ideia de sustentabilidade: utilizar os recursos preservando sua capacidade de renovação.
A formulação moderna ganhou projeção em 1987, com o relatório Nosso Futuro Comum, elaborado pela comissão da Organização das Nações Unidas presidida por Gro Harlem Brundtland. O documento consolidou a proposta de atender às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras. Cinco anos depois, a Rio-92 ampliou a presença do desenvolvimento sustentável na agenda internacional, com a adoção da Agenda 21.
No Brasil, a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente, em 1973, foi um marco institucional. Seu primeiro dirigente, Paulo Nogueira Neto, participou posteriormente da Comissão Brundtland, contribuindo também para o debate mundial.
Do conceito às decisões de projeto
A incorporação desses princípios à engenharia ocorreu gradualmente. No Brasil, a Política Nacional do Meio Ambiente, de 1981, e a Resolução Conama nº 1, de 1986, estabeleceram instrumentos e diretrizes para avaliar os impactos de empreendimentos.
Na construção, métodos de avaliação passaram a organizar critérios ambientais e verificar seu atendimento. O BREEAM foi lançado no Reino Unido em 1990. No Brasil, a primeira certificação LEED de um edifício ocorreu em 2007.
Em 2025, o país ocupou o sétimo lugar no ranking de área certificada LEED entre países e regiões fora dos Estados Unidos. Foram 171 projetos, somando 2,93 milhões de metros quadrados certificados naquele ano. O indicador demonstra a adoção dessa certificação, mas não representa a totalidade das construções brasileiras nem constitui um ranking geral de sustentabilidade.
Energia renovável é vantagem, mas exige diversificação
As hidrelétricas têm papel central na matriz elétrica brasileira, acompanhadas pela expansão das fontes eólica, solar e da biomassa. Segundo o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2026, as renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica em 2025 e por 49,4% da matriz energética total.
A trajetória, porém, não é linear. Em 2025, a participação renovável na eletricidade caiu em relação aos 88,2% registrados no ano anterior. A EPE relaciona essa redução à menor geração hidrelétrica e importação de Itaipu, associadas ao aumento da geração a gás natural. No mesmo período, a geração solar cresceu 24,7% e a eólica, 8,2%.
O cenário reforça a importância de diversificar as fontes e planejar sistemas capazes de assegurar o abastecimento diante das variações de disponibilidade hídrica.
Renováveis diferenciam o Brasil do mundo
Na matriz elétrica, em 2023, as principais fontes brasileiras eram a hidrelétrica (58,9%), a eólica (13,2%), a biomassa (8%) e a solar (7%), com outras fontes respondendo por 12,9%. No mundo, predominavam carvão mineral (35,5%), gás natural (22,1%), hidrelétrica (14,6%) e nuclear (9,1%), enquanto as demais somavam 18,7%.
Já na matriz energética total, que inclui eletricidade e combustíveis, o Brasil tinha petróleo e derivados (35,1%), biomassa da cana (16,9%), hidráulica (12,1%), gás natural (9,6%) e outras fontes (26,3%).
Mundialmente, as maiores participações eram de petróleo e derivados (30,2%), carvão mineral (27,8%), gás natural (22,7%) e biocombustíveis e resíduos (8,8%), com outras fontes representando 10,5%.
Os dados da EPE e da Agência Internacional de Energia evidenciam a maior presença de fontes renováveis no Brasil, sobretudo na eletricidade.
Água e indústria mostram aplicações brasileiras
No ABC Paulista, a Aquapolo demonstra uma aplicação da sustentabilidade na integração entre saneamento e indústria. O empreendimento produz água de reuso para o Polo Petroquímico de Capuava e outras empresas da região, reduzindo a dependência de água potável. Segundo a operadora, sua capacidade de produção chega a mil litros por segundo — medida que indica o potencial instalado, não o volume efetivamente economizado.
Outra experiência é o Ecoparque da Natura, inaugurado em 2014, em Benevides, no Pará. O complexo combina produção industrial, tratamento de efluentes por jardins filtrantes e aproveitamento de água da chuva. Segundo o relatório empresarial de 2024, reunia cerca de 700 trabalhadores diretos e indiretos, com 93% da mão de obra operacional formada por pessoas da região. O caso permite observar as dimensões ambiental e social da sustentabilidade.
O próximo avanço precisa chegar à vida cotidiana
A sustentabilidade pode orientar desde o desempenho de motores e processos industriais até o planejamento da mobilidade e da habitação. Nas cidades, essa abordagem envolve integrar drenagem, uso do solo, proteção de encostas e infraestrutura, considerando a segurança da população.
Para ampliar sua contribuição, a engenharia precisa transformar critérios de projeto em resultados verificáveis. Economia de água, redução do consumo de energia, durabilidade, manutenção e benefícios sociais devem ser acompanhados durante a operação dos empreendimentos.
As experiências brasileiras mostram caminhos possíveis. O avanço depende de ampliar sua aplicação: construir e produzir com menos desperdício, proteger os recursos naturais e fazer com que soluções eficientes também estejam ao alcance da população.
Foto: Daniel De Lima/Unsplash
